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Olá a todos, aqui é Ricardo Vargas, e este é o 5 Minutes Podcast. Imagine uma estrada no meio do campo. Atravessando essa estrada, existe uma cerca. Ela não parece fazer sentido nenhum. Não tem animal por perto, não tem casa, não tem placa. Uma pessoa passa por ali e diz: "Essa cerca não serve para nada. Vamos tirar." E outra pessoa, mais sábia, responde mais ou menos assim: "Se você não sabe para que ela serve, eu não vou deixar você tirar. Primeiro vá descobrir por que ela está aqui. Depois a gente conversa."
Essa pequena história foi contada pelo escritor inglês G. K. Chesterton há quase cem anos e ficou conhecida como a Cerca de Chesterton. E eu acho que ela nunca foi tão atual para quem trabalha com projetos. Hoje todo mundo quer simplificar. Menos burocracia, menos aprovações, menos documentos, menos reuniões. E eu concordo com muita coisa disso. Muitas organizações acumularam camadas de controle que atrasam tudo e não protegem ninguém.
Mas existe uma armadilha aqui. Simplificar sem entender não é agilidade. É aposta. Pense num projeto de transformação que decide eliminar uma etapa de aprovação nas compras. Ninguém lembra por que ela existe. Ela atrasa cada pedido em uma semana. Então ela sai, e todo mundo comemora. Agora imagine que, seis meses depois, a empresa descobre que aquela aprovação foi criada anos atrás, depois de um problema sério com um fornecedor. Aquela etapa não estava ali por burocracia. Ela era a cicatriz de uma ferida antiga. E quando tiramos a cicatriz sem entender a ferida, a ferida volta.
Em projetos que entram em crise, isso aparece com frequência: o controle que foi cortado para ganhar velocidade vira exatamente a porta por onde o problema entra. Isso não quer dizer que toda regra antiga é boa. Pelo contrário. Muitas cercas estão ali só por hábito, por medo ou porque alguém esqueceu de tirar. Essas precisam sair, e quanto antes, melhor.
A questão não é manter ou remover. A questão é saber o que estamos removendo. Então, como levar a Cerca de Chesterton para o nosso dia a dia? Eu vejo quatro passos simples. O primeiro é perguntar quem criou aquele processo e por quê. Muitas vezes basta uma conversa de quinze minutos com alguém que está há mais tempo na empresa. Outras vezes a resposta está num relatório de auditoria antigo, num contrato ou numa lição aprendida que ninguém leu. O segundo passo é descobrir qual risco aquela cerca estava segurando. Todo controle existe para proteger contra alguma coisa. Se o risco ainda existe, precisamos de outra forma de tratá-lo antes de tirar a cerca. Se o risco não existe mais, ótimo, podemos remover com tranquilidade. O terceiro passo vale quando não conseguimos descobrir a resposta. Nesse caso, precisamos tirar a cerca de um jeito que dê para voltar atrás. Fazemos um piloto, numa área, por um período, e observamos o que acontece. Isso é muito diferente de acabar com um controle na empresa inteira numa segunda-feira de manhã. O quarto passo é o que eu acho mais bonito dessa história. Precisamos escrever por que as nossas próprias cercas existem. Daqui a alguns anos, alguém vai olhar para as regras que criamos hoje e vai achar que elas não servem para nada.
Se deixarmos o motivo registrado, essa pessoa vai poder decidir melhor do que nós. Um bom processo não é aquele que dura para sempre. É aquele que explica por que existe. Tem mais uma coisa que eu queria dizer. A Cerca de Chesterton também vale para as decisões de outras pessoas. Quando assumimos um projeto no meio do caminho, é muito tentador achar que o time anterior fez tudo errado. O cronograma não faz sentido, a arquitetura é estranha, o contrato parece mal feito. Às vezes é verdade. Mas muitas vezes aquelas decisões foram tomadas com restrições que nós não conhecemos. Um orçamento cortado, um prazo imposto, um fornecedor que desistiu no meio do caminho. Um pouco de humildade antes de julgar economiza muito retrabalho e muitas vezes evita que a gente repita os mesmos erros. Então eu deixo um desafio para esta semana. Antes de eliminar qualquer coisa no seu projeto, faça uma única pergunta: por que isso está aqui? Se a resposta for "não sei", ainda não é hora de derrubar a cerca. É hora de conversar.
Espero que tenham gostado deste episódio e até a próxima semana com mais um 5 Minutes Podcast.