Transcrição do episódio A transcrição é gerada automaticamente por Podscribe, Sonix, Otter e outros serviços de transcrição eletrônica.
Olá a todos, aqui é Ricardo Vargas, e este é o 5 Minutes Podcast.
Nesta semana eu gravei um vídeo para um curso no LinkedIn, e uma história ficou na minha cabeça desde então.
É a história da eletricidade chegando às fábricas, no final do século XIX.
Naquela época, as fábricas funcionavam em volta de uma grande máquina a vapor.
Ela girava um eixo enorme, preso no teto, e esse eixo movia todas as máquinas por meio de correias.
Por isso, as fábricas tinham vários andares, todos empilhados em volta da máquina a vapor.
O lugar de cada máquina era decidido pela distância até o eixo, e não pela lógica do trabalho.
Quando o motor elétrico apareceu, a maioria dos donos de fábrica fez o que parecia mais óbvio.
Tiraram a máquina a vapor, colocaram um motor elétrico no lugar e mantiveram todo o resto.
O mesmo eixo, as mesmas correias, o mesmo prédio. E a produtividade quase não mudou.
Em 1899, os motores elétricos respondiam por menos de 5% da força mecânica das fábricas americanas.
O grande salto de produtividade só veio nos anos 1920, umas quatro décadas depois da chegada da eletricidade comercial.
Quem explicou essa demora foi o economista Paul David, de Stanford, num artigo publicado em 1990.
O ganho só apareceu quando alguém teve coragem de tirar o eixo do teto.
Cada máquina ganhou o seu próprio motor.
A fábrica passou a ter um andar só, organizada em torno do fluxo do produto.
E a mudança não foi só no prédio, porque as pessoas passaram a tomar mais decisões e precisaram aprender a trabalhar de outro jeito.
Eu conto essa história porque vejo a mesma coisa acontecendo hoje com a inteligência artificial nos nossos projetos.
E não estou falando de longe. Eu também faço isso.
Pensem no relatório de status que levava uma manhã inteira para ficar pronto.
Hoje, com IA, ele sai em poucos minutos.
A ata da reunião se escreve sozinha.
O resumo do cronograma chega pronto na caixa de entrada do patrocinador.
Isso é progresso, e eu quero deixar bem claro que não estou criticando.
Economizar tempo é bom e merece ser comemorado.
Mas, se olharmos com calma, o que fizemos foi trocar o motor.
O eixo continua lá no teto.
Por isso eu quero fazer uma pergunta que me incomoda bastante.
Nós já nos perguntamos se o relatório vai existir no futuro.
O relatório de status nasceu por um motivo muito simples.
A informação não chegava sozinha a quem precisava decidir.
Alguém tinha que juntar os dados, organizar, resumir e levar para cima.
O relatório era o eixo do projeto.
Agora imaginem um patrocinador que pode perguntar diretamente sobre os dados do projeto, a qualquer hora, o que está atrasado e por quê.
Nesse mundo, fazer o relatório dez vezes mais rápido é como colocar um motor mais potente num eixo que talvez nem precise mais existir.
A mesma pergunta vale para muita coisa que fazemos todos os dias.
A reunião semanal que só repassa informação.
A aprovação passa por quatro níveis só para confirmar o que todo mundo já sabe.
O comitê que se reúne para ler em voz alta um documento que todos receberam no dia anterior.
Nada disso está errado. Tudo isso foi desenhado para um mundo em que a informação era cara e lenta.
O que isso muda no nosso trabalho como gerentes de projetos e patrocinadores?
Primeiro, quando montamos o business case de um projeto de IA, precisamos separar dois tipos de benefício.
Um é o tempo economizado, que é trocar o motor.
O outro é a estrutura redesenhada, que é tirar o eixo do teto.
O primeiro aparece rápido e é fácil de medir.
O segundo demora mais, dá mais trabalho e mexe com poder, com papéis e com hábitos.
Mas é ele que faz a diferença de verdade.
Segundo, precisamos tomar cuidado com o tempo que a IA libera.
Se ninguém decide para onde vai esse tempo, ele costuma ser ocupado por mais do mesmo: mais relatórios, mais versões, mais reuniões.
Aí trocamos o motor e ainda penduramos mais correias no eixo.
Terceiro, existe uma pergunta simples que ajuda muito nessa hora.
Se fôssemos começar este processo hoje, do zero, com a tecnologia que temos agora, ele existiria do jeito que está?
Se a resposta for não, automatizar esse processo pode ser só uma forma mais rápida de continuar no passado.
Por isso eu deixo um desafio para esta semana.
Escolham um único artefato do seu projeto, por exemplo, o relatório semanal.
Perguntem que decisão ele apoia, quem toma essa decisão e se essa pessoa ainda precisa dele para decidir.
Talvez a resposta seja sim e tudo bem.
Mas talvez vocês descubram que estão mantendo um eixo no teto só porque ele sempre esteve lá.
Os donos de fábrica que trocaram só o motor não eram ingênuos, porque trocar um prédio que ainda funcionava custava caro.
Mas o grande ganho ficou para quem teve coragem de redesenhar o prédio.
Talvez o projeto de IA mais valioso da nossa organização não seja aquele que faz o relatório em dez minutos.
Talvez seja aquele que torna o relatório desnecessário.
Espero que tenham gostado deste episódio e até a próxima semana com mais um 5 Minutes Podcast.