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Olá a todos, aqui é Ricardo Vargas, e este é o 5 Minutes Podcast. Este episódio nasceu de uma sugestão do Antonio Malagutti, um colega que conheço do PMI São Paulo. Ele me contou que, num grupo de WhatsApp de gerenciamento de projetos muito ativo, a troca de dicas, cursos e vagas esfriou um pouco este ano. E levantou uma hipótese que me deixou pensando: cada vez mais, estamos deixando de lado as relações humanas para conversar com a IA.
Pensem em como isso acontece no dia a dia de um projeto. Surge uma dúvida sobre um contrato, uma estimativa ou uma reunião difícil com o patrocinador. Antes, muita gente mandava uma mensagem para um colega mais experiente, ou colocava a pergunta no grupo. Hoje, muita gente pergunta primeiro para a IA. A resposta chega rápido, é educada, não julga e não pede nada em troca. E é exatamente aí que começa o problema que eu quero discutir hoje.
Existe um caso que mostra isso com números. O Stack Overflow é um dos maiores sites de perguntas e respostas para programadores do mundo. Durante anos, foi ali que desenvolvedores do mundo inteiro trocaram dúvidas e soluções, de graça. Um estudo publicado em 2024 na revista científica PNAS Nexus mediu o que aconteceu com o site depois do lançamento do ChatGPT. Em apenas seis meses, a atividade no Stack Overflow caiu 25%, comparada com plataformas parecidas onde o acesso ao ChatGPT era restrito. A queda já vinha de alguns anos, mas ficou muito mais forte depois da chegada da IA generativa. Em maio de 2025, o número de perguntas por mês tinha voltado ao nível de 2009, o ano em que o site foi lançado.
E só para deixar claro, este episódio não é patrocinado por nenhuma das empresas que eu cito aqui. Os modelos de IA foram treinados, entre outras fontes, com esse conhecimento aberto que as pessoas compartilharam ao longo de anos. Os próprios autores do estudo alertaram que o conhecimento está saindo do espaço público e indo para conversas privadas com a IA. E, no futuro, talvez não existam dados públicos suficientes para treinar os próximos modelos. Ou seja, a IA aprendeu com quem compartilhou. Se nós pararmos de compartilhar, ela vai aprender com quem?
A mesma coisa acontece nas nossas organizações, só que ninguém mede. A IA responde muito bem à pergunta genérica, como montar uma matriz de riscos ou escrever um termo de abertura. Mas o que salva um projeto numa semana difícil é o contexto. É saber que aquele cliente sempre aprova as mudanças na última hora.
É saber que aquele fornecedor já falhou no mesmo ponto dois anos atrás. É saber como a equipe de outra área resolveu um problema parecido, e o que deu errado no caminho. Esse conhecimento está na cabeça das pessoas, e só circula quando alguém pergunta e alguém responde. Quando cada um conversa apenas com a sua IA, a equipe vira um grupo de pessoas lado a lado, cada uma com a sua conversa privada. As lições param de circular. E quase ninguém percebe, porque cada um, individualmente, continua recebendo respostas.
O Adam Grant, professor da Wharton, ajuda a entender o que está em jogo no livro Give and Take, de 2013. Ele divide as pessoas em três grupos. Os que dão, que ajudam sem ficar fazendo conta. Os que só pegam, que tentam receber mais do que oferecem. E os que equilibram, que dão na mesma medida em que recebem.
Num estudo com vendedores, ele encontrou algo curioso: quem mais ajudava os outros estava tanto entre os melhores resultados quanto entre os piores. O que separava os dois grupos eram os limites.
Quem chegava ao topo ajudava muito, sem se deixar explorar e sem se esgotar. Toda comunidade, e todo time de projeto, vive de dar para receber. Ela começa a morrer quando sobram pessoas que só pegam e faltam pessoas que dão.
E aqui está a provocação deste episódio. A IA tornou muito confortável ser alguém que só pega. Ela nunca reclama que nós só pedimos, e nunca pergunta o que nós trouxemos para a conversa. Por isso mesmo, ela não exercita em nós o hábito da troca. Nada disso significa deixar de usar a IA, que é uma ferramenta extraordinária para os nossos projetos. Mas a IA responde e não se lembra de nós.
Ninguém indica alguém para uma vaga porque essa pessoa fez ótimas perguntas a um chatbot. Ninguém fica até tarde numa sexta-feira ajudando a salvar o projeto de quem nunca respondeu a uma mensagem no grupo. A confiança que segura um projeto numa crise é construída nessas pequenas trocas, uma de cada vez. Então eu deixo uma pergunta para esta semana. Quantas vezes nós perguntamos alguma coisa para a IA nos últimos sete dias? E quantas vezes respondemos à pergunta de alguém?
Se a conta estiver desequilibrada, vale responder uma dúvida no grupo, contar uma lição que aprendemos, inclusive o que deu errado, ou simplesmente perguntar a um colega antes de perguntar à máquina. Espero que tenham gostado deste episódio, e até a próxima semana com mais um 5 Minutes Podcast.